EPISÓDIO VII
O AMARAL

Morreu hoje e deixou imensas saudades.

Veio para esta associação em circunstâncias muito peculiares.

Fui visitar uma senhora e ao olhar para o jardim 

vejo um bode amarrado a uma árvore à torreira do sol,

sem água e sem comida.

Perguntei-lhe porque motivo o desgraçado estava naquelas circunstâncias 

e a  resposta que obtive foi, que ele lhe comia a fruta toda que estava nas árvores. 

Logo a  seguir ela perguntou-me se eu o queria levar e eu respondi-lhe que sim.

- E quando?- perguntou ela-

Agora- respondi eu.

- Mas como o vai levar?

- No meu carro.

Desamarrou-se o bode e colocou-se dentro do carro.


Levei-o comigo e instalei-o no local das éguas. 

Mal se apanhou solto desatou aos pinotes de satisfação e às corridinhas. 

Achámos que tinha focinho de Amaral e assim foi batizado.

Claro está que o meu carro ficou a cheirar a bode durante um mês 

mas por fim o cheiro lá passou.

Desde que veio para esta associação o Amaral teve vida de burguês. 

Comidinha e água com fartura sempre a horas.



Esteve connosco cerca de 10 anos. 

Quando comprei duas cabras ao circo, casou várias vezes 

e  deixou uma prole de seis bodes.



Brincava muito connosco. 

Bastava dar-lhe uma palmadinha no dorso ou puxar-lhe e abanar os chifres, 

para ele se pôr em pé nas patas traseiras e arremeter contra nós

como se fosse dar-nos uma marrada.

Mas a propósito de marradas tinha algumas manias.

Um dia deu-me uma marrada a sério e atirou-me ao chão. 

Fiquei com os joelhos esfolados  e  desde então estava sempre atenta quando estava ao pé dele,

com um olho no burro e outro no cigano, 

não fosse dar-lhe um vaipe  e levar outra marrada. 

Não fui só eu a vítima porque ele deu marradas a outras pessoas.


Com o correr dos anos ficou mais calmo 

e ultimamente via-se o Amaral envelhecer dia a dia. 

Comia menos  e já não dava as corridinhas malucas de antigamente.



Devagar foi-se apagando até que hoje partiu a dormir. 

Saudações Amaral



Continua...

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